Venezuela – Documentos do governo venezuelano obtidos pela agência Reuters indicam que o regime de Nicolás Maduro vem desenhando planos para uma resistência no estilo guerrilheiro e para a promoção de “caos” urbano caso os Estados Unidos lancem um ataque aéreo ou terrestre ao país, informou a agência nesta terça-feira (11).
Segundo a Reuters, os documentos revelam a previsão de dispersão estratégica do limitado arsenal militar venezuelano — incluindo equipamentos russos com décadas de uso — e a ordenança para que unidades do Exército se dispersem e se escondam em cenários de ataque. Fontes consultadas pela agência admitem que, em uma guerra convencional, a Venezuela teria poucas chances. “Não duraríamos duas horas em uma guerra convencional”, declarou à Reuters uma fonte próxima ao governo.
O clima de alerta em Caracas decorre da escalada de tensões alimentada pelo presidente Donald Trump e pela forte movimentação militar americana no mar do Caribe desde setembro. Mídia dos EUA afirma que o presidente buscaria apenas uma justificativa jurídica para intervir. Trump chegou a mencionar a possibilidade de operações terrestres na Venezuela e afirmou que “os dias de Maduro na presidência da Venezuela estão contados”. O governo americano também acusa Maduro de conexões com o tráfico — ao rotulá-lo como líder do chamado “Cartel de los Soles” — enquanto o presidente venezuelano acusa os EUA de buscar sua derrubada e tem intensificado o treinamento de civis para resistir a uma possível intervenção.
Fontes ouvidas pela Reuters ressaltam que o reconhecimento interno das limitações militares venezuelanas motivou estratégias alternativas. As Forças Armadas do país, dizem essas fontes, enfrentam falta de pessoal qualificado, baixos salários, pouco treinamento e equipamentos deteriorados. A escassez de suprimentos chegou a levar comandantes a negociar com produtores locais de alimentos para alimentar suas tropas, segundo duas fontes ligadas às forças de segurança.
Duas frentes de defesa
De acordo com os documentos e com fontes da agência, o plano governamental aposta em duas frentes complementares. A primeira — anunciada em transmissões da TV estatal como “resistência prolongada” — prevê a atuação de pequenos destacamentos militares espalhados por mais de 280 pontos do território, com ações de sabotagem e táticas típicas de guerrilha.
A segunda tática, descrita nos documentos como “anarquização”, envolveria o emprego de serviços de inteligência e de apoiadores armados do partido governista para fomentar a desordem nas ruas de Caracas e impedir que forças estrangeiras consigam governar a capital. Não está claro quando ou em que combinação cada tática seria aplicada, mas as fontes concordam que ambas surgem do reconhecimento das limitações do poder militar regular venezuelano.
Em declarações públicas, autoridades venezuelanas tentaram minimizar a ameaça externa. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, ironizou em rede nacional a ideia de que um bombardeio americano resolveria a situação: “Eles acham que, com um bombardeio, vão acabar com tudo. Aqui neste país?”, disse no início de novembro. Maduro, por sua vez, tem enaltecido os “soldados da pátria” como herdeiros de Simón Bolívar.
Estimativas internas apontam que, no cenário de “anarquização”, entre 5 mil e 7 mil pessoas — entre agentes de inteligência, milicianos e apoiadores armados — poderiam ser mobilizadas para semear desordem. Por outro lado, cerca de 60 mil integrantes do Exército e da Guarda Nacional estão listados como mobilizáveis para a chamada “guerra de resistência” de estilo guerrilheiro, segundo uma fonte ligada à defesa.
Fontes que conhecem as capacidades de defesa e segurança do país ressaltam, no entanto, que a Venezuela “não está preparada nem profissionalizada para um conflito” com uma potência como os Estados Unidos. O Ministério da Comunicação venezuelano, responsável por responder à imprensa em nome do governo, não comentou o material citado pela Reuters.











