Nathan Chasing Horse, conhecido mundialmente por Dança com Lobos, foi condenado à prisão perpétua após ser considerado culpado por uma série de crimes sexuais contra mulheres e meninas indígenas. A sentença foi anunciada na segunda-feira por um tribunal de Nevada e encerra, ao menos nesta etapa, um caso que abalou comunidades nativas nos Estados Unidos e no Canadá.
O júri já havia condenado o ex-ator em 13 acusações, a maioria ligada a agressões sexuais. Entre as denunciantes está uma mulher que tinha 14 anos quando, segundo a acusação, os abusos começaram.
Mesmo diante da sentença, Chasing Horse negou os crimes. “Isto é um erro judicial”, afirmou diante da juíza Jessica Peterson.
No tribunal, porém, o peso dos relatos das vítimas marcou a audiência. Mulheres e familiares descreveram traumas que permanecem vivos e, além disso, relataram o impacto espiritual causado pelo caso. Para muitas delas, a violência não se restringiu ao abuso físico, mas também atingiu a confiança em tradições sagradas.
O julgamento girou em torno de uma acusação central: a de que Chasing Horse usou a imagem de líder espiritual para aliciar e principalmente controlar mulheres jovens.
Promotores sustentaram que ele se valia do respeito conquistado em cerimônias indígenas para manipular vítimas vulneráveis. Durante o processo, a promotora Bianca Pucci afirmou que o ex-ator “teceu uma rede de abuso” por quase duas décadas.
Um dos relatos mais impactantes veio de Corena Leone-LaCroix, que disse e convencido, ainda adolescente, de que deveria “entregar a virgindade” para salvar a própria mãe doente. Segundo a acusação, essa chantagem espiritual abriu caminho para abusos que se prolongaram por anos.
As mães das vítimas também falaram em traição. Uma delas resumiu o trauma ao afirmar: “Até o dia de hoje me custa recuperar minha fé e minha espiritualidade”.
Outra denunciante relatou consequências físicas severas após uma gravidez ectópica decorrente do abuso. Ainda assim, declarou no tribunal: “Estou escolhendo ver este momento como um novo começo”.
Caso ainda não terminou
Embora a condenação em Nevada represente um marco, os problemas judiciais do ex-ator estão longe do fim.
Além desse processo, ele enfrenta acusações pendentes no Canadá. Na Colúmbia Britânica, há um caso de agressão sexual ligado a um suposto crime de 2018. Em Alberta, segue ativo um mandado de prisão.
As autoridades canadenses indicaram que pretendem avaliar novos passos quando os recursos nos Estados Unidos encerrarem.
A prisão de Chasing Horse, em 2023, já havia provocado forte repercussão em territórios indígenas, justamente porque o ator tinha trânsito em comunidades nativas muito além do cinema. Nascido na Reserva Rosebud, em Dakota do Sul, ele se tornou conhecido após interpretar Smiles a Lot no clássico estrelado por Kevin Costner e, depois disso, passou décadas participando de powwows e cerimônias de cura.
Esse histórico, porém, tornou as acusações ainda mais graves.
Para a doutora Crystal Lee, fundadora da organização United Natives, o caso ultrapassa a figura de um ator condenado. Para ela, expõe como figuras de prestígio podem instrumentalizar poder, espiritualidade e confiança para cometer abusos.
“Acho que isso nos faz questionar em quem confiamos e por que confiamos”, afirmou.
Mais do que uma sentença histórica, o caso reacende debates sobre violência sexual, responsabilização e o peso de romper o silêncio — especialmente quando o acusado ocupava, para muitos, um lugar quase sagrado.
Fonte: O Fuxico











