Mundo – O presidente francês, Emmanuel Macron, disse nesta quinta-feira (8) que a França votará contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. O posicionamento será levado à reunião dos embaixadores do bloco europeu marcada para amanhã.
A declaração de Macron reforça a França como o principal foco de resistência ao avanço do acordo. Ao lado do país, também se posicionam outros membros do bloco europeu, como Irlanda, Hungria e Polônia. Já a Itália mantém uma postura ainda indefinida — e é considerada decisiva para a concretização do tratado.
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o tratado amplia o acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores e tem impactos que vão além do agronegócio, alcançando também diferentes segmentos da indústria brasileira.
No mês passado, Macron já havia condicionado qualquer apoio à inclusão de novas salvaguardas voltadas à proteção do setor agrícola do país.
“Quero dizer aos nossos agricultores, que expressam a posição francesa desde o início, que consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, declarou.
Ele acrescentou que Paris também se oporá a qualquer tentativa de acelerar ou impor a aprovação do pacto.
Entre produtores rurais da França, o acordo com o Mercosul é visto como uma ameaça, diante do receio de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e submetidos a padrões ambientais diferentes dos exigidos pela União Europeia.
- De forma geral, o acordo comercial prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, além de regras comuns para temas como comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. O texto é negociado há mais de 25 anos.
Com a assinatura do acordo se aproximando, o governo francês decretou ontem a suspensão temporária das importações de alguns produtos agrícolas, em especial os provenientes da América do Sul tratados com agrotóxicos proibidos no bloco europeu.
A medida, que entrou em vigor no dia seguinte e terá duração de um ano, ainda depende de aval da Comissão Europeia.
- A lista inclui itens como abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas e batatas, que ficarão barrados caso apresentem resíduos de cinco fungicidas e herbicidas vetados na Europa: mancozeb, tiofanato-metílico, carbendazim, glufosinato e benomil.
Assinatura pode ocorrer na segunda (12)
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial discutido desde 1999 pode avançar para sua etapa final dentro da União Europeia. O Conselho do bloco se reúne nesta sexta-feira, em Bruxelas, para decidir se autoriza a aprovação do texto.
Mesmo diante da oposição declarada de países como França, a expectativa é de que a Comissão Europeia consiga reunir o apoio da maioria entre os 27 Estados-membros.
Caso isso se confirme, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, ficará habilitada a assinar formalmente o acordo na próxima segunda-feira (12), no Paraguai. O tratado criaria a maior área de livre comércio do mundo.
Apoio de Alemanha e Espanha
Na outra ponta do debate, Alemanha e Espanha mantêm apoio firme ao avanço do tratado. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que a União Europeia leve adiante o acordo firmado politicamente com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Para esses governos, o pacto pode ajudar a mitigar os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos europeus e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência do bloco em relação à China, ao ampliar o acesso a minerais estratégicos e a novos mercados.
“Se a União Europeia quiser manter credibilidade na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, declarou Merz.
Itália pode apoiar acordo
Nesse cenário, a Itália passa a ocupar um papel central na definição dos próximos passos do acordo. Em dezembro, durante as discussões no Conselho Europeu sobre a aprovação do texto, a primeira-ministra Giorgia Meloni indicou que o país poderia apoiar a proposta, desde que fossem consideradas as preocupações do setor agrícola.
Essa sinalização ganhou força nesta terça-feira, após Meloni receber de forma positiva uma carta da Comissão Europeia que propõe acelerar a liberação de 45 bilhões de euros em apoio aos agricultores. A iniciativa foi classificada pela premiê como um “passo positivo e significativo”.
No mesmo sentido, o ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, afirmou que a União Europeia passou a discutir a ampliação — e não a redução — dos recursos destinados à agricultura italiana no período de 2028 a 2034.
Depois, uma fonte da União Europeia afirmou à Reuters que a Itália deve votar a favor do acordo comercial com o Mercosul na reunião marcada para sexta-feira.
A Comissão Europeia, com o respaldo de países como Alemanha e Espanha, busca reunir o apoio mínimo de 15 Estados-membros que representem ao menos 65% da população do bloco, condição necessária para autorizar a assinatura do acordo, possivelmente já em 12 de janeiro.
Embora a resistência se concentre no agronegócio, o tratado vai além da área agrícola e inclui regras para indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual, o que explica o apoio de outros setores econômicos.











