Fome, falta de água potável, dificuldade de acesso à educação e ausência de eletricidade fazem parte da realidade de 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento. Em 2026, a pobreza multidimensional voltou a crescer pela primeira vez desde 2010, com 51,5 milhões de pessoas a mais nessa condição em relação ao ano anterior. O alerta consta em um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e da Iniciativa de Pobreza e Desenvolvimento Humano da Universidade de Oxford.
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O cenário é especialmente preocupante para crianças e moradores de áreas rurais. Mais da metade das pessoas afetadas são crianças, enquanto 83% vivem no campo, onde o acesso a serviços essenciais pode ser limitado. O levantamento considera dez indicadores relacionados à saúde, à educação e às condições de vida, demonstrando que a pobreza não se resume à renda familiar.
A pesquisa abrange 108 países em desenvolvimento, que concentram, juntos, 78% da população mundial. Ao comentar os resultados, o administrador do Pnud, Alexander De Croo, ressaltou que a combinação de privações torna a realidade dessas pessoas ainda mais difícil.
“Por trás desses números estão 1,2 bilhão de pessoas que enfrentam dificuldades que se reforçam mutuamente: fome, falta de acesso à educação e falta de água potável ou eletricidade. Isso é inaceitável”, afirmou.
Moçambique se destaca entre lusófonos
Entre os países de língua portuguesa incluídos no estudo, Moçambique apresenta a maior proporção de pessoas em situação de pobreza multidimensional grave, com 38,8%. Guiné-Bissau aparece em seguida, com 35,9%, enquanto Angola registra 29,6% e Timor-Leste, 17,4%.
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Na outra ponta estão São Tomé e Príncipe, com 2,1%, e Brasil, com 0,9%. Os números, contudo, precisam ser interpretados com cautela: os países não foram avaliados com base em pesquisas realizadas no mesmo período.
Os indicadores de Moçambique e Angola vêm de levantamentos feitos entre 2020 e 2025. Já os dados de Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Brasil correspondem a pesquisas realizadas entre 2014 e 2019. Por isso, o percentual brasileiro não deve ser entendido como um retrato atualizado da pobreza no país em 2026.
O relatório também aponta diferenças nos desafios enfrentados por essas nações. Moçambique convive com privações estruturais expressivas, enquanto o Brasil apresenta um índice comparativamente menor, mas ainda enfrenta desigualdades persistentes. Em Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, vulnerabilidades geográficas, climáticas e econômicas agravam as dificuldades. Timor-Leste, por sua vez, ainda lida com os efeitos do período pós-conflito, a transição econômica e os obstáculos para consolidar serviços e infraestruturas básicas.
Crescimento populacional influencia os números
O aumento do total de pessoas em situação de pobreza multidimensional não significa, necessariamente, que a proporção da população afetada tenha subido em todos os países. De acordo com o Pnud, o crescimento demográfico ajuda a explicar parte do resultado global.
Angola e Zâmbia são exemplos dessa dinâmica. Nos dois países, a parcela da população em situação de pobreza diminuiu. No entanto, a expansão populacional superou a redução proporcional do indicador, elevando o número absoluto de pessoas afetadas.
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A disponibilidade de informações também impõe limites à análise. Dos 108 países incluídos no levantamento, apenas 13 apresentaram dados novos em relação à edição anterior. Essa defasagem dificulta a identificação de mudanças recentes em parte das nações avaliadas e exige atenção ao comparar os resultados.
China, Vietnã e outros países registram avanços
Embora o quadro mundial tenha piorado, o relatório também reúne exemplos de redução da pobreza multidimensional. Egito, Nepal e Tajiquistão conseguiram diminuir tanto a proporção da população afetada quanto o número absoluto de pessoas nessa condição.
A China apresentou a queda mais rápida entre os países com dados disponíveis para comparação. Entre 2010 e 2014, o percentual de habitantes em situação de pobreza multidimensional recuou de 9,5% para 4,2%, menos da metade do patamar inicial. O Vietnã também cortou seu índice pela metade em um intervalo de sete anos.
Ao todo, 33 dos 89 países com informações comparáveis reduziram pela metade a parcela da população afetada em menos de 15 anos. Seis deles ficam na África Subsaariana.
Outro destaque é Eswatini. Ao longo de 15 anos, o país diminuiu de 38,7% para 8% o percentual da população em situação de pobreza multidimensional, uma das reduções expressivas identificadas no estudo.
O combate à pobreza em todas as suas formas integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). A meta 1.2 prevê reduzir pela metade, até 2030, a proporção de homens, mulheres e crianças que vivem na pobreza em todas as suas dimensões, conforme as definições adotadas por cada país.
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O crescimento registrado em 2026 evidencia o tamanho do desafio. Embora experiências como as da China, do Vietnã e de Eswatini mostrem que avanços importantes são possíveis, o aumento global do número de pessoas afetadas reforça a necessidade de políticas capazes de enfrentar privações simultâneas.
O relatório considera difícil alcançar o compromisso até 2030, mas avalia que a meta continua possível. Para isso, o enfrentamento da pobreza precisa ir além da renda e contemplar condições essenciais, como acesso à saúde, educação, água potável e eletricidade.
Fonte: O Fuxico











