‘Senhora Travesti’ estreia em Manaus e propõe reflexão sobre memória e envelhecimento de corpos trans

Nova criação da Companhia Transversal de Artes Integradas convida o público a imaginar futuros para corpos travestis por meio de uma dramaturgia construída a partir da memória, da espiritualidade e da permanência.

Manaus (AM) – Em “Senhora Travesti”, a pergunta que move a dramaturgia é: como imaginar o futuro de um corpo travesti? A resposta chega ao palco do Teatro Gebes Medeiros, em Manaus, até 30 de julho, às 19h30, com entrada gratuita e classificação indicativa de 16 anos.

A nova montagem é a mais recente criação da Companhia Transversal de Artes Integradas, coletivo artístico independente formado por pessoas trans em Manaus. Fundada em 2022 pela atriz, diretora e produtora Nicka, durante seu processo de transição de gênero, a companhia nasceu do desejo de construir um espaço onde artistas trans pudessem pesquisar, criar e ocupar a cena com autonomia, protagonismo e liberdade.

Desde então, a pesquisa da Transversal articula teatro e audiovisual a partir de narrativas LGBTQIAPN+, especialmente das experiências de pessoas trans na Amazônia. Entre seus principais trabalhos estão o espetáculo “Viper Paradise”, multipremiado nacionalmente, o curta-metragem “O Extraordinário Evanescer”, vencedor do Júri Popular no CLOSE – Festival de Cinema LGBTQIAPN+ de Manaus, e agora “Senhora Travesti”, obra que inaugura uma nova etapa da investigação artística da companhia.

O espetáculo nasce de uma inquietação que atravessa a vida de muitas pessoas trans no Brasil: quem tem o direito de envelhecer? Em um país marcado pela violência e pela exclusão dessa população, organizações como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) utilizam há anos a estimativa de 35 anos para evidenciar o impacto da transfobia sobre a longevidade de pessoas trans e reforçam que o dado deve ser compreendido como um indicador da desigualdade vivida por essa população, e não como uma expectativa de vida oficial.

Foi dessa provocação que surgiu a dramaturgia. “Senhora Travesti nasce da necessidade de imaginar um futuro para corpos travestis. Em um país onde a violência insiste em interromper tantas vidas, e em Manaus, cidade que também carrega profundas marcas de exclusão sobre corpos trans”, afirma Nicka, que assina a direção, a dramaturgia e também interpreta o espetáculo.

Embora dialogue com experiências pessoais da artista, a personagem não é autobiográfica. Em cena, ela reúne memórias individuais e coletivas, afetos, perdas, espiritualidade, humor, desejo, violência e resistência. A história da personagem é atravessada por perguntas que permanecem abertas: o que significa sobreviver? Quem cuida das travestis? Quem nos permite envelhecer? O que permanece quando tantas histórias são interrompidas?

O nome “Senhora Travesti” propõe um deslocamento simbólico. A palavra “senhora”, que dá título ao espetáculo, rompe com imaginários que frequentemente associam travestis apenas à juventude ou à violência, colocando em cena uma existência marcada pela memória, pelo afeto e pelo tempo.

“Colocar uma senhora travesti em cena é afirmar uma existência que historicamente foi negada. É romper com a ideia de que pessoas travestis estão destinadas apenas à marginalização, à violência ou à morte precoce”, explica a artista.

Diferente de uma narrativa linear, o espetáculo costura lembranças, relações familiares, espiritualidade, encontros e ausências por meio de uma dramaturgia performativa, em que palavra, corpo, música, silêncio e presença constroem diferentes camadas de tempo e imaginação. O espetáculo convida cada pessoa presente a refletir sobre quais vidas são autorizadas a existir plenamente e quais futuros ainda precisam ser imaginados coletivamente.

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